energia cobracoral

uma criança com um cabo de vassoura pode muita coisa.


ela pode montar e virar bruxa, voar, prender fitas e fazer os ventos dançarem, lutar, fazer cabo de guerra, dançar feito caboclinho, bater no chão uma das pontas, girar, atirar como se fosse lança, jogar para que alguém pegue no ar, enterrar, equilibrar com a mão, com o pé, com a cabeça, com o braço, com o peito, pescar sonhos, amaldiçoar, pegar uma fruta do pé, massagear as costas e o bumbum.


uma criança com um cabo de vassoura pode muita coisa. dependendo – de muita coisa! dos pais, de onde vem, de onde está, para onde vai –, pode também desencantar.


assim como a cidade desencanta, também desencantam as formas de estar no mundo. “você pode tudo, só não mexe com meu filho”, ouço dizer uma moça em plena praça oscár. em plena praça pública. ali eu posso tudo, mas não com o filho dela. não que eu quisesse muita coisa disso.


me lembro de minha mãe enquanto danço, ela certamente faria isso. proteção mais besta essa.


me desencanta. me faz querer sumir, dançar dentro do meu quarto para que ninguém mais veja. como sempre foi. mas isso não me basta mais.


no domingo acordo ainda em desencanto. penso em não ir, ficar em casa, me enterrar no colchão, passar o dia fudendo que é mais gostoso. passar o dia sem pensar, sem fazer nada. mas saio, e assim que chego e ligo meus pés com os pés da terra, algo acontece. meu corpo muda. sobe e desce uma energia doida, outra, do cu à nuca, do céu à terra. caboclocobracoral, listras voluptuosas pelo corpo. mexeção.


olhos flecha me convidam a dançar, me chamam para conhecer novas carnes, novas corpas, novas gentes. tão bonitas todas dançando. em conexão com a energia da mata, da floresta. olhar com a certeza da direção.


outras formas de existência são possíveis. quem nos atravessa também se transforma, percebe a possibilidade de ser outro outro alguém, de estar no munto de outro jeito. de pisar no chão com os pés descalços. meus pés ficam sujos, assim como minhas mãos, e meu corpo ganha uma fina fina camada de terra. novos cheiros me tomam o corpo. bergamota, limão, cedro. ganho perfumes quando meus olhos flecha fazem um convite, uma pergunta.


“a cidade de são paulo é uma bosta”, dizem. e não sei se concordo. entendo. ela também machuca a mim, me desencanta a cada dia. mas existe algo de muito bom aqui. a possibilidade de encontro. talvez falte uma coisa: princípio de integração, em detrimento da exclusão, da desigualdade. só quando for excluída a exclusão essa terra caminhará livre.

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