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ENCANTERIA

Nov. 2021

FICHA TÉCNICA:

Direção: Thiago Abel

Corpos: Are Bolguese, Daniel Aleixo, Fernanda Carvalho, José Teixeira, Natália Sellani,

Vicente Pereira, Victor Rosa e Yasmin Berzin.

SINOPSE:

Encantaria é uma manifestação religiosa afro-ameríndia cuja principal premissa é a crença em seres que não morrem, mas se encantam. 


São barões da noite, florestas, rainhas da rua, rios, ciganas, pedreiras, boiadeiros, cobras-corais, princesas do além-mar, mães d’água, pretos-velhos, sereias, meninos levados, feiticeiras, botos, redemoinhos, anhangás, ondinas, sucupiras, xamãs, rezadeiras, canoeiros, eguns da diáspora; seres ora homem, ora mulher, ora flor, ora jacaré, ora vento, ora o que bem quiser: Todas as gentes - não só humanas - massacradas pelos projetos de aniquilação cada vez mais atuais.

Esta performance do Núcleo Experimental de Butô evoca a poética dos encantados como ato de resistência e louvação a todos os seres, saberes e fazeres que são excluídos pelo Brasil oficial, a partir de danças provocativas realizadas nas ruas, norteadas pela intenção de amaldiçoar os inimigos, abençoar os amigos e despertar outros modos de existência a partir de cosmovisões não-eurocêntricas. Propõe também a dança como potência que faz emergir vida da terra, rompendo o asfalto e fazendo com que transeuntes e encantados celebrem juntos mais uma vez.

PROPOSTA DE ENCENAÇÃO:

Encantaria é uma performance com duração de 1 hora, constituída por dança e música ao vivo, executada em espaços urbanos como ruas, praças e parques. 


A tessitura dramatúrgica dá-se a partir de sete ações-disparadoras:

  1. Despertar/Inebriar a cidade (dança dos minerais)

  2. Lavar/Afogar a cidade (dança das águas)

  3. Respirar/Asfixiar a cidade (dança dos vegetais)

  4. Seduzir/P(h)oder a cidade (dança da libido)

  5. Incendiar/Aquecer a cidade (dança do fogo)

  6. Devorar/Alimentar a cidade (dança dos animais)

  7. Amaldiçoar/Bendizer a cidade (dança dos encantados)


Explora-se assim a ambivalência de cada ação, exemplo: a mesma água que lava é capaz de afogar, assim como o fogo que aquece é capaz de incendiar. Desse modo manteve-se em cada ação da performance um caráter de imprevisibilidade característico dos encantados e de suas feitiçarias.

Cada uma das danças foi elaborada pelo diretor a partir da seleção e síntese de movimentos oriundos de experimentações dos dançarinos e músicos a partir de processos de improvisação que exploraram estas ações disparadoras e consequentemente as temáticas e imagens que se conectam a cada uma delas.

Todos os ensaios deram-se em espaços urbanos, executando treinamentos destinados ao desenvolvimento da capacidade de abrir-se para os acontecimentos não planejados a qual se está à mercê em uma experimentação de rua. Assim, as ações são temas que norteiam os artistas durante a experiência performativa, mas esses estão abertos para que também sejam afetados por eventos e pessoas que virão a cruzá-los.

Com a capacidade de se adaptar para qualquer espaço público, a corêutica dá-se principalmente pela ação de expansão. Tendo os músicos como ponto estático no centro de uma circunferência, a cada dança os performers ampliam o diâmetro desta circunferência, assim como a extensão e velocidade de seus deslocamentos e movimentos.

ARGUMENTO:

Ao dançar os aparentemente mortos, é exatamente contra a morte que este ato se lança. O que os projetos colonial, capitalista e neoliberal visam é uma dominação operada a partir de um fazer morrer não só biológico - aprisionamento, assassinato - mas também cultural, epistêmico, ontológico e linguístico. A necropolítica está vinculada a esquecimento, escassez, interdição dos saberes, desmantelo cognitivo, desarranjo de memórias e apagão histórico. Para a maioria dos pensamentos e práticas decoloniais do Brasil, um fazer viver torna-se possível a partir do reconhecimento de memórias e do exercício de epistemologias outrora invisibilizadas.


Contra os extermínios físico e simbólico, os dançarinos desta companhia abrem espaço na própria carne para os saberes sensíveis da encantaria.  Enquanto houver corpos a rememorar e exercitar os saberes e fazeres de um povo, esse permanecerá vivo. Ou escutamos e falamos com outras vozes, ou nos calaremos para sempre. Saravamos os mortos que vivem valentemente galopando seus cavalos, choramos os vivos que são mortos sem cavalo, sem galope, sem vento ou valentia.


Este trabalho foi elaborado a partir de uma concepção criativa onde os atuadores deixam de ser um simuladores - no caso dos dançarinos, responsáveis por operar a mimese de indivíduos em determinados contextos sociais ou a enunciação de discursos; e no caso dos músicos, responsáveis por executar uma partitura - e passam a agir como um estimuladores de afecções que ocorrem entre os performers e espectadores inseridos na experiência cênica.


Em oposição às encenações interpretativas, representativas, narrativas ou inseridas em uma lógica significante-significado, o trabalho busca operar uma dança que seja a presentificação de forças e formas. Neste tipo de experiência, a criação de signos é um fazer corpo com outro corpo, sendo a linguagem a instância que coloca em relação esses corpos, estando o sentido mais conectado ao sentir do que à significação. Propõe-se o rompimento com a pretensa ideia de comunicar conteúdos determinados que deveriam ser lidos pelo espectador. O intuito é possibilitar experiências psicofísicas e políticas transformadoras.


Encantaria é o primeiro trabalho da companhia após a suspensão das atividades em razão da pandemia. Tendo em vista que o Núcleo Experimental de Butô nasceu e foi criado nas ruas, uma vez que 90% de suas oficinas e criações são realizadas em espaços públicos, a retomada das investigações e experimentos deu-se a partir das seguintes perguntas: Como reocupar as ruas? Quem é o Povo da Rua? O que eles podem nos ensinar para enfim reabitarmos as ruas, os encontros e a nós mesmos? Como aprender e criar a partir da falha? Como desistir da megalomania de criar novos mundos e aprender a habitar as ruínas?

 

Fotos de Felipe Menezes

 
 

Fotos de...