ANHANGÁS

2017

“Anhangá”, em cosmologias indígenas, quer dizer sombra, alma errante, espírito que vagueia. Designava também os mortos de tempos muito antigos onde não haviam diferenças entre homens e animais. Protetores da terra, não possuem uma forma, mas são capazes de se metamorfosear em todos os corpos: humanos, animais, plantas, minerais, fenômenos da natureza. Nesta performance, objetiva-se presentificar nos corpos dos dançarinos a qualidade da terra enquanto útero-túmulo, fluxo constante entre vida e morte, para escancarar que é impossível restringir a morte ao espaço do cemitério, pois nem a vida – nem a terra – são separáveis das inúmeras mortes que as constituem. 
“Quando você anda, tenha cuidado. Você pode estar andando sobre os mortos”. O dizer de Ôno nos atenta para a distinção entre terra e cidade: território que nega e marginaliza a morte, delimitando-a aos muros dos cemitérios e crematórios. Enquanto, na relação homem-terra os mortos se fazem presentes o tempo todo, ao andarmos no asfalto da cidade, não nos relacionamos, ou melhor, fingimos não nos relacionar com tudo aquilo que morreu para que a vida fosse possível. A performance propõe uma dança com a potência de fazer emergir os ossos, romper o chão da cidade, para que eles dancem e celebrem a vida enfim destituída destas limitações e barreiras impostas na modernidade.
A lama, presente na poética de Hijikata, surge nos corpos dos dançarinos para retomar o pensamento de que morrer é nascer diferente do que se é, tudo se encontra nela. O que o Ankoku Butô (Dança das Trevas) anuncia é um pensamento de pertencer à terra, presente também na cosmologia ameríndia. Portanto, o Butô transpassa estados-nacionais – com suas identidades e culturas – e os diversos tempos da história.