O que de very butô uma orgia de feiticeiras pode revelar?

Trechos do livro Pelo cu: políticas anais, de Javier Sáez e Sejo Carrascosa.


Parte do mito contemporâneo sobre o “indivíduo” se constrói ao redor da ideia de ser completo, fechado em si mesmo, uma unidade separada e autônoma. De fato, a etimologia de indivíduo significa precisamente isso, algo que não se pode dividir. Não vamos entrar aqui na visão da psicanálise que contradiz diretamente essa ideia (o sujeito seria precisamente algo dividido desde sua fundação, uma entidade separada do real pela linguagem, cuja identidade se funda no outro). Aqui vamos estudar a criatura humana como mera corporeidade (já sabemos que essa “mera” nos traz, mas temos um pouco de pressa). Essas duas aberturas que estamos analisando neste livro, o ânus e sua supervalorizada companheira, a boca, nos mostram que o corpo humano (e o de todos os animais) não é uma entidade fechada e completa, muito pelo contrário, é algo aberto, mais que isso, aberto de uma forma muito especial (p.101).


[...] essa superfície que é o corpo tampouco é fechada no sentido estrito. É porosa, aberta. A pele tem poros e por ela se intercambia a água com o exterior. As paredes do estômago do intestino são porosas e, graças a essas paredes permeáveis, os nutrientes da comida são assimilados pelo organismo. Assim sendo, a sobrevivência dos organismos vivos depende do fato de que são sistemas abertos. Em termos mecânicos ou de produção, nosso corpo transforma alimentos em energia e os restos inúteis dessa transformação se convertem em fezes, em dejetos. Mas é interessante salientar que tanto a fase inicial do processo, o ato de comer ou beber, como a fase final, a defecação, se produzem “fora” do nosso organismo, no orifício que nos atravessa de ponta a ponta.


Quem sabe essa visão não nos ajudasse a entender com menos drama tudo o que se cria ao redor da penetração anal, como uma violação de nosso espaço interior, a facilitar uma fronteira entre o mundo e nossa intimidade [...] (p.102-103).


[...] Preciado em seu ensaio Manifesto contrassexual, realizou uma rigorosa genealogia do dildo para mostrar que este não procede de uma imitação ou referência ao pênias, mas à mão. O dildo procede das técnicas e máquinas desenhadas para reprirmir a mão que masturba (p.112).


[sobre Fist] Abandona-se a centralidade dos genitais e a dinâmica obrigatória ereção-ejaculação. É curioso observar que esse abandono do pênis aparece em um ambiente gay quando precisamente os gays são identificados como adoradores do falo [...] (p.112).


O fist faz outra coisa, ele é um pornô sem genitais. Como assinalado, o código do pornô tradicional está saturado pelo circuito ereção-penetração-ejaculação, onde o eixo narrativo é o pênis. Em contraponto, nos filmes pornôs de fist, em muitos casos, não aparece nenhuma ereção, e mais, não aparecem órgãos genitais. O interesse se desloca para outras partes do corpo (p.112-113-114)


No seu livro Manifesto contrassexual, Preciado propõe uma prática contrassexual “ressexualizar o ânus (uma zona do corpo excluída das práticas heterocentradas, considerada como a mais suja e a mais abjeta) como centro contrassexual universal” (apud. p.114) (PRECIADO, p.30)


Deixa-se de conceber o corpo como espaço fechado, para mostrá-lo como um espaço totalmente aberto: a exibição do ânus e do reto [& neste nosso trabalho, de todos os poros e canais] que realizam a prática e o cinema fist supõe inverter totalmente essa visão do corpo enclausurado (p.116).



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